Os Arquitectos são poetas também” era uma expressão da autoria de José Angelo Cottinelli Telmo , e foi adoptada como título da exposição que evoca um dos homens mais brilhantes da primeira metade do século XX português, que está patente no Padrão dos Descobrimentos, até 6 de Abril – monumento de cujo projecto foi autor no âmbito da Exposição do Mundo Português, em 1940.

Extraordinário é o adjectivo mínimo para classificar este ser humano singular, que se destacou pela sua genialidade e capacidade de actuação plural: arquitecto de profissão, integrou a geração de pioneiros do modernismo na arquitetura em Portugal, do qual faziam parte Carlos Ramos, Cristino da Silva, Jorge Segurado, Pardal Monteiro e Cassiano Branco e entendia que “a Arquitectura devia estar em comunhão com todas as artes, com todas as disciplinas…”

Esta exposição levanta apenas o véu sobre a essência complexa deste homem dotado de múltiplos talentos que não hesitava em experimentar de tudo um pouco: reconhecido como humorista e crítico, ilustrador, autor de banda desenhada, argumentista e realizador de cinema, escritor e poeta, ainda tocava piano e dançava.

Enquanto humorista, ilustrador talentoso e autor de banda desenhada, ganhou notoriedade como autor de “As aventuras extraordinárias do Pirilau que vendia balões” (1920), banda desenhada que publicava na Revista Ilustrada ABC, cujo êxito levou a que coordenasse a primeira revista infantil portuguesa.

A sua capacidade de criação e de intervenção estendeu-se a outros domínios, como o cinema, tendo sido o argumentista e cineasta que realizou (1933) o primeiro filme sonoro integralmente português, considerado uma uma das obras primas do cinema nacional, “A canção de Lisboa“, protagonizado por Vasco Santana, António Silva e Beatriz Costa.

No âmbito da Arquitectura deixou uma obra vastíssima e relevante não só por Lisboa, mas um pouco por todo o País. Considerado o “homem de confiança” de Duarte Pacheco, Cottinelli Telmo foi responsável por obras de vulto do período do Estado Novo, nomeadamente pela concepção global do projecto Exposição do Mundo Português (Lisboa, 1940) que coordenou como arquitecto chefe, mas também pelo planeamento da expansão da Universidade de Coimbra (1943), pelo projecto de urbanização do Santuário de Fátima, a Colónia de Férias da Praia das Maçãs (1942-43), o edifício de passageiros do Apeadeiro da Curia (1943-44), pelo Sanatório da Covilhã (1944), pela Estação Fluvial do Terreiro do Paço (1932), o edifício sede da Standard Eléctrica, a sua última obra de vulto e por tantos outros, que “polvilham a paisagem lisboeta” e onde deixou a sua marca de génio.

Infelizmente a vida foi demasiado curta para este “Homem em constante movimento”*, que faleceu aos 51 anos, no dia 18 de Junho de 1948, na sequência de um episódio de “lições de pesca” que frequentava com a mulher, no mar do Guincho, e ao qual não sobreviveu.

Para além da exposição “Os arquitectos são poetas também”, decorre esta semana, também no Padrão dos Descobrimentos e até dia 13 de Fevereiro, um espectáculo teatral dedicado a esta figura ímpar e destinado a adultos e crianças, entre os 8 aos 12 anos.

Sob o título “O homem sem rótulo“, este espectáculo, da autoria de Miguel Fragata, homenageia a história desta figura absolutamente singular e múltipla. Como afirma Miguel Fragata “… às vezes, surgem pessoas que transbordam das gavetas, desarrumam tudo e não nos deixam colocar-lhes rótulos. E será que temos todos de ter um rótulo?”

Calendário de apresentações:
Fevereiro
09 – 10h30/14h30
10 – 10h30
11 – 10h30
12 – 10h30

A não perder, tanto a exposição como, se puder, a peça teatral.

 

Cottinelli Telmo_Aventuras do Pirilau        Cottinelli Telmo_A canção de Lisboa

Cottinelli Telmo_Mundo portugues

Cottinelli Telmo_o homem sem rótulo

Fontes: *Jornal O Expresso, Revista, edição 29/NOV/14;

Site da exposição “Os arquitectos também são poetas” – http://www.padraodosdescobrimentos.pt/exposicao-cottinelli-telmo/

Blogue “Citizen Grave” – http://citizengrave.blogspot.pt/2013/01/cottinelli-telmo-criacao-do-mundo.HTML

Foto da construção do Padrão dos Descobrimentos – Fotos da Fundação Gulbenkian. Flick. Autoria Estúdios Horácio Novais.